Transformando dados em dinheiro: Como empresas usam estatísticas de futebol para impulsionar seus negócios

As estatísticas nunca foram tão presentes no futebol. A maioria dos clubes bem estruturados tem departamentos dedicados a analisá-las para entender o que está acontecendo em campo e diminuir a margem de erro de futuras contratações. Às vezes, até encontrar um craque escondido. 

No entanto, existem outras maneiras de usar esses dados. Algumas empresas construíram modelos de negócios em torno deles ou o usam para tomar decisões melhores na hora de investir.

O nicho mais óbvio é fornecê-los aos clubes com a maior qualidade possível. Plataformas como WyScout ou StatsBomb lideram o mercado como mostramos na primeira parte deste conjunto de reportagens produzidas pelo time da Superbet, plataforma de apostas esportivas. Mas há outras maneiras. Como auxiliar casas de apostas no cálculo das cotações ou jogadores de seleção brasileira a identificar onde podem melhorar. 

Para fazer bons investimentos

A Outfield foi fundada como uma empresa de consultoria em 2016. Auxiliava os seus clientes com planejamento, orçamentos, estratégias de gestão, entre outras coisas. Trabalhou com vários clientes, incluindo clubes das séries A, B e C. De alguns anos para cá, porém, ampliou o seu leque de serviços. Bastante. “Evoluímos para virar o que é hoje, na prática, quase um banco de investimentos”, afirma o sócio-fundador da empresa, Pedro Oliveira, à equipe da Superbet. 

Essa mudança de atuação acompanhou o aumento do interesse de investidores pelo futebol brasileiro. Sempre pareceu um bom negócio em teoria. O torcedor é o cliente mais fiel que existe: nunca trocará de time e o relacionamento costuma ser de longo prazo. Cada vez com mais tecnologia, existe a oportunidade de expandir a marca nacional e internacionalmente e, nos últimos anos, o esporte ao vivo ganhou importância dentro do mundo do entretenimento por ser um dos poucos eventos transmitidos pela televisão que consegue rivalizar em atenção com plataformas de streaming ou redes sociais. 

Apesar de tudo isso, o futebol brasileiro em si sempre gerou certa hesitação. Existem boas gestões em clubes associativos e más gestões em sociedades anônimas, mas, do ponto de vista do investidor, é melhor evitar uma situação como esta do Flamengo, na qual a administração atual, liderada pelo presidente Luiz Eduardo Baptista, abriu uma briga jurídica por não concordar com uma decisão da gestão anterior e chegou a conseguir uma liminar que ameaçou bloquear repasses de direitos de TV a outros clubes da Libra (Liga do Futebol Brasileiro). A dificuldade dos clubes se entenderem, aliás, é outro complicador. Entre Libra e LFU (Liga Forte União), ainda não tem uma única entidade liderada pelos clubes para organizar o Campeonato Brasileiro. “A gente já ouviu (de potenciais investidores) várias vezes que estão esperando a hora que a liga será formada e haverá uma segurança maior de como funciona esse negócio”, diz Oliveira.

De qualquer maneira, a Lei da SAF foi um marco importante para atrair investimentos ao futebol brasileiro, mas não o único. Ele também cita as duas leis do Profut (programa de refinanciamento de dívidas com o governo federal), a Lei do Mandante (que permitiu aos clubes venderem individualmente os direitos de transmissão dos seus jogos em casa) e a regulamentação das apostas esportivas. “Você tem esses cinco marcos regulatórios que, juntos, trazem uma segurança jurídica maior para que os investidores possam botar dinheiro. Nossa leitura mais técnica é que, a partir do momento em que a Lei da SAF é aprovada, o cara vê um arcabouço jurídico regulatório que favorece a entrada de capital”, explica. 

Quando a Lei da SAF foi aprovada, a Outfield estava em uma “jornada empreendedora”, como descreve Oliveira, e procurava oportunidades para investir em clubes - ou mesmo comprar um. A primeira experiência foi com o Maringá, clube paranaense que fazia parte do seu portfólio de clientes desde 2017. Depois, investiram no Coritiba, assumindo um papel maior dentro da gestão no começo deste ano. Atualmente, são co-controladores. Em agosto, foram além do Brasil e, em parceria com figuras do calibre de Felipe Massa e Novak Djokovic, compraram o Le Mans, da segunda divisão francesa. Como investidor ou gestor, é um exercício quase diário tomar decisões com base em alguma coisa. E é melhor quando essas coisas são dados bem fundamentados. 

Oliveira afirma que investiu bastante no departamento de análise de desempenho do Coritiba e em uma área de inteligência que observa ativamente todas as transações do mercado global. “Por exemplo, jogadores saindo da Romênia para a Ucrânia estão na nossa base. Não que a gente vá usar aquilo para o nosso elenco, mas ajuda a entender por quanto um lateral esquerdo está sendo negociado no leste europeu. Como isso vai balizar uma futura negociação nossa de um atleta para aquele mercado”, explica. 

Os dados chegam das plataformas habituais. O que eles decidiram fazer de diferente foi integrar a base de dados do futebol com a da gestão e desenvolver uma metodologia que consegue avaliar qual o custo-benefício de um atleta. “Você sabe o salário dele, quanto que ele custa no dia a dia, no rateio de alimentação, transporte, e consegue olhar na análise de desempenho o quanto ele está entregando em campo. E aí você consegue estabelecer, dentro de um teto de 100%, onde ele está dentro desse balizador”, explica. “O jogador A está entregando 95% do que é esperado dele no financeiro? Então é uma discussão muito melhor de se ter para renovar salário e dar um aumento. Está entregando 20%? Tem que pensar até no aspecto técnico por que ele está entregando tão pouco”. 

Pela filosofia de gestão empregada pela Outfield, o departamento de futebol tem autonomia, dentro de um orçamento pré-definido, para construir o elenco para a temporada, sempre tentando equilibrar análises técnicas e comportamentais, além das estatísticas. Ele admite que pensa em, uma hora, chegar a um modelo bastante focado em números. Parecido com o do clube inglês Brentford, que tem uma das abordagens mais radicais para o uso de estatísticas no futebol. 

“É uma baita referência para todo mundo. Como temos esse viés de investidor, temos que dar retorno para o capital investido. Para nós, a construção do processo tem que ser 100% pautada em dados e também nesse elemento comportamental, que é super importante”, diz. ”Nós pensamos bastante nisso, sim, em ser 100% guiados por dados para as tomadas de decisão”.

Para calcular odds

Dados e estatísticas também são usados para estabelecer as cotações das casas de apostas. Elas não são nada mais do que uma fórmula matemática. Cada cotação traz uma probabilidade implícita (por isso, odds em inglês). Simplificando, porque a maioria das casas tem uma espécie de margem de lucro chamada juice, uma cotação 2.00 está dizendo que a probabilidade daquele evento acontecer é de 50%. O trabalho do apostador é concluir se esse número está baixo ou alto.

A Genius é uma plataforma fundada em Londres em 2001 que trabalha com dados em várias frentes. Uma delas é fornecer estatísticas para entidades como as Federações Internacionais de Vôlei e Basquete. O quadradinho com a pontuação, assistências e tentativas de arremesso em uma Copa do Mundo de Basquete, por exemplo. Embora não seja o negócio principal, também fornecem soluções para análise de desempenho do adversário, com base em informações públicas (transmissões das partidas), para times da WNBA, liga feminina de basquete dos EUA, NFL e mesmo para clubes de futebol, como o Necaxa, do México.

Uma segunda é trabalhar com empresas de consumo e de varejo para entregar informações anônimas que são coletadas durante a experiência ao vivo do apostador. “A aposta, como tudo que é ao vivo, engaja muito as pessoas e vai deixando trilhas de quem você é na internet, o que é ouro nessa economia digital”, afirma Ricardo Pisani, gerente sênior de sucesso dos clientes da Genius.

Pelo histórico de apostas, eles conseguem ter uma ideia de qual time o usuário torce e colocar um quadradinho com a odd atual da partida na linha do tempo do Instagram, caso ele não esteja com a televisão ligada. Ao mesmo tempo, uma marca como a Heineken, uma das clientes da Genius, pode aproveitar para fazer uma publicidade mais direcionada. “O seu time tomou um gol e você está triste e ela fala: abre uma Heineken, relaxa a cabeça. Ou o seu time marcou e está bem, ou a partida terminou, uma Netshoes aproveita para tentar vender uma camiseta do time dele”, explica ao time Superbet. 

O foco do negócio, porém, é o cálculo das odds. A empresa começou sua caminhada captando dados para eventos, tanto no pré-jogo, quanto no ao vivo, para fazer as cotações. “A Genius foi se especializando, tanto do ponto de vista institucional, se transformando em parceiras dos campeonatos, confederações e federações esportivas, quanto das casas de aposta, investindo em tecnologia e refinando muito esse trabalho, principalmente no ao vivo”, diz Pisani.

O pré-jogo é mais simples. Não passa de um modelo estatístico. Precisa ser diferente, dependendo do esporte. O futebol tem três resultados possíveis: vitória, empate e derrota. Esportes americanos, apenas dois. Esportes eletrônicos são uma outra dinâmica. “O compilado de dados recentes, dados históricos, retrospecto de vitórias e derrotas e empates, tudo o que aconteceu em uma partida, quem vai estar na partida, quantos gols essa pessoa fez, os minutos que ela costuma jogar, você vai compilando todos esses dados e criando um grande modelo para falar o favorito”, conta. 

Por mais matemático que seja, a ciência não é tão exata assim. Sempre existe um pouco de imponderável ou subjetivo na análise de um jogo de futebol. Uma variável, por exemplo, é o volume de apostas: depois da odd abrir, ela flutua de acordo com quantas pessoas estão apostando em um ou outro time. Outra coisa considerada é o mercado onde a casa está. Pisani explica usando o confronto entre Botafogo e Paris Saint-Germain pela Copa do Mundo de Clubes. No Brasil, onde o Botafogo é mais conhecido, a sua cotação era provavelmente menor do que em outros países onde o PSG é mais famoso. Além disso, com casas de apostas patrocinando clubes de futebol, o volume pode ser influenciado pela afinidade. “Uma casa de apostas que está no Bahia tende a ter mais torcedores do Bahia lá dentro. Talvez não seja a maior casa naquele mercado, mas acaba tendo a empatia do torcedor”, afirma.

O ao vivo é um pouco mais complexo. Quando a partida começa, o favoritismo cai por terra. Os modelos começam a calibrar automaticamente as odds com base em quem está aparentemente jogando melhor. Essa é a tecnologia que mais evoluiu. Agora, principalmente nas ligas com as quais a Genius tem parceria, como a Premier League, já está embutida dentro da própria transmissão e consegue passar as informações em uma fração de segundos. Cerca de 16 câmeras são espalhadas em pontos estratégicos do estádio, escaneando o campo em 3D e mapeando tudo que está acontecendo. Ainda existe uma pessoa olhando para o que está sendo captado, para ter uma camada extra de segurança, mas a maior parte do processo é automatizada. 

“Se um time está com volume de jogo, com 70% de posse de bola, no campo do adversário, massacrando o oponente, chutando a gol toda hora, isso está sendo levado em conta”, explica. “De novo, Botafogo e PSG. Pela falta de confrontos entre sul-americanos e europeus e uma série de outras coisas, era difícil de calibrar a odd. Então, quando o Botafogo começou o jogo e passou a atacar, ter controle da partida, ou estar melhor, a odd dele ficou menor, e a do PSG, passou a ser maior”. 

A Genius também tem um sistema de monitoramento para identificar volumes excepcionais de apostas para tentar identificar possíveis casos de manipulação de resultados. Ela não determina ou julga se isso aconteceu, mas cria alertas que permite que as federações ou confederações façam uma análise mais minuciosa. “De repente, você vê um jogo na Série B que tem um volume gigantesco de apostas na Ásia por um site que só aceita cripto”, explica Pisani. “Você tende a olhar. Pode ser só uma coincidência, uma odd que estava boa no momento, mas isso vai gerar um alerta”. 

Para saber como melhorar

O amplo acesso às plataformas de análise de desempenho não se limita aos clubes. Os próprios atletas aproveitam as ferramentas para entender melhor seu jogo e para se preparar nos confrontos individuais. As principais equipes do mundo fornecem vídeos e estatísticas no aprimoramento de seus atletas. Contudo, a busca pelo autodesenvolvimento vai além e cada vez mais futebolistas contratam analistas de desempenho individuais, que os apoiem em diferentes aspectos. Tal profissional participa do cotidiano de boa parte dos futebolistas de elite, mas o interesse por esse tipo de serviço cresce inclusive em divisões de acesso e categorias de base.

Uma das empresas pioneiras na análise de desempenho individual no Brasil é a Performa Sports, que presta consultoria a mais de 60 jogadores – entre aqueles que atuam no país e no exterior, bem como a alguns estrangeiros. Os atletas fazem reuniões periódicas com os analistas, conforme o plano contratado, para entender os pontos de evolução em suas atuações mais recentes e para receber uma preparação aos próximos compromissos. A lista de clientes inclui diversos jogadores com nível internacional e da seleção brasileira: Bruno Guimarães, Raphinha, Vanderson, André, Jean Lucas, Nino, Igor Paixão, Igor Júlio, Natan, Vini Souza e Fê Palermo estão entre os assessorados.

“A Performa nasceu muito nessa linha de tentar identificar, em primeiro lugar, um nicho no mercado que poderia se desenvolver, por ser um gap, um lugar onde o clube não consegue trabalhar. Por mais que eles se esforcem, não tem como individualizar com 30 atletas no plantel a atenção no nível que a gente consegue”, conta Vicente Caldas, sócio-fundador da empresa.

O pontapé inicial da Performa aconteceu há quatro anos, por iniciativa de Vicente Caldas ao lado de outros dois sócios, os analistas Rafael Marques e Eduardo Barthem. Os especialistas já estavam inseridos no mercado, com trabalhos de consultorias particulares e uma escola de análise tática. A nova iniciativa, com uma empresa ampla para apoiar os jogadores, ocupou uma lacuna. Hoje, a equipe conta com 25 analistas.

“A gente enxergou isso e também partiu muito de tentar transformar o futebol num lugar melhor, auxiliando os atletas a entender mais sobre o seu próprio jogo e assim evoluir”, complementa Vicente. “O Rafa tem uma filosofia de que um jogador melhor é um jogador que conhece mais sobre o jogo. E que mais pessoas conhecendo sobre o jogo fazem com que o jogo seja melhor, o esporte seja melhor, a comunicação seja melhor. Tudo acaba crescendo”.

A rápida expansão da Performa em poucos anos desde sua fundação contou muito com o impacto de seus jogadores em campo. O quarto atleta assessorado pela consultoria foi Bruno Guimarães, então pertencente ao Lyon. O meio-campista estava há alguns meses afastado das convocações da seleção e, a partir da análise individual, atingiu seu nível mais alto. Não apenas conseguiu a participação na Copa do Mundo de 2022, como também se estabeleceu no time nacional e se transferiu à Premier League, onde virou capitão e ídolo do Newcastle. O boca a boca fez cada vez mais futebolistas contratarem o serviço.

A assessoria individual se vale das plataformas de análise de desempenho para fazer seu trabalho. A maior parte da consultoria acontece de forma remota, embora os jogadores também recebam visitas periódicas para ouvir as orientações. Os analistas usam softwares como o WyScout e o SportsBase para ter acesso aos vídeos, enquanto outras ferramentas oferecem dados estatísticos. Os encontros são a cada jogo, semanais, quinzenais ou mensais – a depender do nível de profundidade contratado.

“As ferramentas basicamente vão te entregar materiais. O que você vai fazer a partir disso é que de fato vai ser relevante ou não”, explica Vicente Caldas, acrescentando que a Performa ainda busca alguns tipos de informação que não são computadas nos softwares padrão e necessitam de um trabalho artesanal de seus analistas. “O nosso trabalho na Performa é 90% qualitativo. A gente usa os dados para apontar ou confirmar percepções que a gente teve de campo e bola. A gente tem até um departamento aqui dentro com estatísticas feitas por nós mesmos à mão, com base no comportamento que a gente trabalha com o nosso atleta e que nenhuma plataforma dá”.

No caso de Raphinha, do Barcelona, a quantidade de desmarques de ruptura feitos pelo atacante só pôde ser quantificada a partir da contagem manual de um analista. “As plataformas nos auxiliam com os dados. Os dados que não temos, a gente mesmo gera para que confirme ou aponte. No final das contas, é muito do olhar humano do analista, o que ele consegue fazer com isso. As plataformas são um facilitador”.

As análises dependem muito da demanda do atleta, segundo Vicente. Alguns possuem pedidos específicos, enquanto outros desejam evoluir após atingir um teto. Um exemplo é o do lateral Vanderson, que havia acabado de chegar ao Monaco e contou com apoio para se adaptar às especificidades do Campeonato Francês.

De início, a Performa oferece um raio-x, no qual os analistas dissecam cerca de dez jogos do atleta para identificar seus padrões e o que pode ser potencializado. A ideia é criar consciência sobre comportamentos que podem vir desde as categorias de base e têm chances de serem melhorados com pequenos ajustes. Outro exemplo é do próprio Bruno Guimarães, que tinha um domínio condicionado pela origem no futsal, em que pisava na bola e depois ajeitava. Com isso, ele perdia frações de segundo antes do passe. A partir da análise, o meio-campista internalizou o conselho e passou a criar mais jogadas de perigo, mais veloz para conectar os companheiros.

“A base do trabalho é muito relacionamento. É muito do que o atleta traz pra gente e o que a gente faz com isso, para ser uma via de mão dupla. Quanto melhor o relacionamento com o atleta, melhor o trabalho se desenvolve”, explica Vicente. “O jogador, no alto nível competitivo, é muito inteligente. Então ele debate com você e, se não concordar com a sua ideia, não vai reproduzir. A gente está discutindo ali o tempo todo, dando o nosso ponto de vista e ele dando o ponto de vista dele”.

As plataformas de análise, por si, já facilitam o acesso dos jogadores a ações específicas em campo. Os próprios clubes fornecem esse material. Contudo, a consultoria individual pode ir além do coletivo e fazer planos de jogo personalizados. Garante também clareza sobre exercícios de aprimoramento que podem ser encaixados na rotina, além dos treinamentos no clube. A Performa indica atividades para serem realizadas junto ao preparador físico individual, a fim de lapidar comportamentos de diferentes espécies, sejam eles táticos ou técnicos.

“O clube vai fazer um trabalho gigantesco, muito bom, de prepará-lo para a partida, mas normalmente vai acabar sendo mais geral e focado no que é mais forte da outra equipe. A nossa missão é conseguir individualizar todos os setores do campo para o nosso atleta. A gente procura muni-lo de informações para que possa chegar no jogo mais pronto”, afirma Vicente. Ele cita o exemplo de Nino, ex-zagueiro do Fluminense, em confronto com o Corinthians pela Copa do Brasil. O defensor foi orientado a forçar o domínio de bola de Yuri Alberto com a perna não dominante. Com essa informação, o tricolor se impôs no embate individual e venceu a maioria dos duelos com o corintiano.

Vicente Caldas aponta que o bom desempenho dos jogadores da Performa abre os olhos em relação a mais gente interessada nesse tipo de serviço. Mesmo garotos da base procuram a consultoria. Existe uma margem maior de desenvolvimento entre eles. O mesmo acontece com futebolistas que estão fora das grandes ligas, onde o acesso à informação individualizada pode se tornar um diferencial. Segundo o analista, esse mercado deve crescer ainda mais nos próximos anos – ele compara com o movimento que ocorreu com o preparador físico individual, que antes era eventual e aos poucos se tornou um padrão para os atletas de excelência.

Outro ponto de evolução neste cenário é a maior abertura dos jogadores para ouvir um analista – geralmente profissionais com formação acadêmica que não têm um passado como atletas. “Já houve um preconceito grande de achar que fazer análise individual seria meio que assistir a uma aula sobre futebol. Então, o cara de um nível competitivo alto olha isso e fala: ‘Olha onde é que eu estou, num Flamengo, num Corinthians, num Palmeiras, na Seleção Brasileira. Eu vou sentar para assistir a uma aula sobre como jogar futebol?’ E a gente busca desmistificar muito isso, porque a ideia não é essa”, diz.

“A ideia é trazer luz, lupa para comportamentos que talvez ele não veja e levar para um debate, para entender por que ele faz desse jeito. Trazer nossas ideias a partir dos estudos científicos de análise de desempenho para mostrar comportamentos que podem ser melhor aplicados. Isso aí, ainda mais nesse nível competitivo muito alto, são pequenos ajustes, detalhe do detalhe, mas que vão abrir uma oportunidade gigantesca para ele no jogo”, complementa. “A gente costuma até brincar nas sessões, falar assim: ‘Daqui da minha casa, no ar condicionado, pausando o vídeo, é mole. Aí no campo, a gente sabe que é diferente’. A gente não é dono da razão, a gente não busca esse lugar. Nosso lugar é trazer pro atleta visões sobre o que ele pode fazer para melhorar. E aí ele vai discutir com a gente, vai debater até que ele entenda o que de fato faz sentido”.

E os horizontes são amplos para a análise de dados individual no futebol. Vicente Caldas avalia que a próxima fronteira está na utilização de inteligência artificial no scouting – como numa espécie de Football Manager, em que os jogadores são avaliados por atributos e isso contribua para refinar mapeamento. Já dentro de campo, é a inteligência natural dos craques que impera, e nada melhor do que um olhar de fora para ajudá-los a ver mais sobre seus próprios padrões.

Assim caminha o futebol cada vez mais rico em informações

Os dados de desempenho estão ao alcance de qualquer um. Muitos bancos de estatísticas são abertos, enquanto mesmo as plataformas pagas não deixam de ser acessíveis numa economia tão forte como o futebol. Ao longo das duas últimas reportagens da Superbet, porém, fica claro como ter as informações na mão não basta por si. É preciso saber como usá-las e entender também quais são as suas limitações.

Se por um lado é possível falar sobre a democratização da informação, em que mesmo clubes das divisões mais baixas utilizam as principais ferramentas e os jogadores não dependem de empresários para a divulgação de seu talento, também existem entraves. É papel do analista e do olheiro dos clubes apurar melhor essa informação: através do contexto do padrão de jogo de um time, da observação in loco, da apuração com outros profissionais que trabalharam com o atleta. Os softwares são um impulso inicial, parte da procura, mas não o processo inteiro.

Neste sentido, nada substitui o olhar e a análise que parte dos dados. A quantificação depende da qualificação que será feita da informação. Entender que o sucesso de um jogador ou de um time é influenciado por vários fatores além das estatísticas, como o ambiente interno e o comportamento extracampo. Nem sempre todos os dados para encontrar ou aprimorar um talento estarão nas plataformas. Mesmo estatísticas específicas dependem da percepção humana.

É graças a essa sabedoria de como ler as estatísticas e trabalhar com a abundância de informações que desponta o sucesso. Sem necessariamente uma fórmula mágica, mas com um caminho de excelência a se percorrer – e que se centra mais na organização do clube do que no software que ele comprou. E essa consciência sobre a preponderância do fator humano é consenso em diferentes níveis, a partir de conversas da Superbet com profissionais da Série A ou da Série D, em atuação no futebol brasileiro ou no estrangeiro.

Claro que ter os dados a um clique ajuda, e não só quem está nas comissões técnicas. Os próprios jogadores podem ganhar um apoio diferenciado sobre o seu trabalho individual. Os empresários interessados podem entender cenários para direcionar seus investimentos. Até o mercado que corre paralelo à estrutura das competições em si consegue tirar proveito das estatísticas. Sem dúvidas, uma revolução. Mas que necessita de revolucionários, daqueles que fazem parte da vanguarda que pensa como usar as informações disponíveis.