
Como a música mexe com a cabeça dos jogadores de futebol
Superbet realiza pesquisa com 56 jogadores e cruza dados com profissionais da saúde para entender o real poder da música no futebol
Pesquisa realizada pela Superbet, plataforma de apostas esportivas, com jogadores profissionais de futebol mostra que a música é uma importante aliada no fortalecimento emocional da maioria dos entrevistados. Nas próximas linhas, você vai sintonizar o universo musical dos boleiros e entender como o que sai de seus fones de ouvido e das suas caixas de som pode ajudar o seu time em campo.
Foram ouvidos 56 atletas de clubes das quatro divisões do Campeonato Brasileiro e das cinco regiões do país. As idades deles variam entre 16 e 38 anos.
Numa escala de 0 a 10 de importância, 42,9% cravaram a nota máxima para a relevância do hábito de ouvir música antes dos jogos na preparação mental deles. Essa foi a alternativa mais escolhida pelos atletas, que participaram de forma anônima.
A segunda opção mais votada foi a que indicava grau “8” de importância para o som que os jogadores ouvem no pré-jogo. Tal alternativa foi assinalada por 19,6% dos entrevistados.
Mas o que os atletas tentam despertar em suas mentes ouvindo música nos momentos que precedem a entrada em campo? Num cenário no qual era possível marcar mais de uma opção, a resposta preferida foi “concentração” (46,4%). As outras alternativas eram “motivação” (42,9%), “entrar no clima do jogo” (37,5%) e “relaxamento” (33,9%).
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A pesquisa produzida pelo time da Superbet mostra também que a diversificação das playlists dos jogadores reflete o mosaico cultural que compõe o elenco de um time brasileiro. Além de atletas nascidos em todos os cantos do país, a legião estrangeira está cada vez mais presente. Em meio a esse caldeirão de culturas, os entrevistados elegeram 11 opções diferentes, incluindo a alternativa “outro”, como gênero musical preferido para ouvir antes dos embates.
A música gospel se destacou como o gênero número 1 para 33,9% dos participantes. Em segundo lugar, ficou o funk, com 21,4% dos votos (veja a relação completa no infográfico). Ninguém escolheu as opções “MPB” e “Reggaeton”.
Confira o infográfico e veja o compilado e cruzamento de dados mais interessantes do estudo

O olhar da ciência
Profissionais das áreas da neurociência e da psicologia ouvidos pela Superbet indicam que a confiança dos jogadores no hábito de curtir um som como combustível para a preparação mental faz sentido.
“Com certeza, a música é uma aliada muito importante, principalmente para os atletas que gostam de música”, disse a psicóloga do esporte e clínica Jaciara Alves Paz.
O maestro Allan Christian, que atua como músico, neurocientista, professor e pesquisador, explicou que a música pode ajudar os jogadores a ficarem menos estressados e ansiosos.
“A música estimula a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer e à expectativa pelo cumprimento da meta coletiva. Também ajuda a manter em níveis adequados a adrenalina — hormônio relacionado à explosão muscular e às respostas rápidas — e reduz o cortisol, que está associado ao estresse. Esse conjunto de reações contribui para um melhor controle da ansiedade pré-partida, evitando a sobrecarga mental e mantendo o atleta emocionalmente estável sob pressão”, disse o maestro.
De acordo com Christian, estudos em neurociência também mostram que a prática musical, seja ouvindo ou tocando, estimula a neuroplasticidade e fortalece habilidades importantes para o desempenho esportivo.
“A música desenvolve capacidades como percepção espacial, coordenação motora, tomada de decisão e controle emocional. Esses elementos são fundamentais para atletas, e o nível de domínio de cada um deles faz diferença direta no rendimento e na qualidade do desempenho”, afirmou o neurocientista.
E a psicologia, diz o quê?
Jaciara, acostumada a usar a música em seu trabalho com atletas, detalhou como os ritmos musicais podem ser trabalhados na preparação mental dos jogadores.
“As músicas mais tranquilas vão auxiliar a gente a acalmar, a ter aquela sensação de respirar mais leve, de estar mais tranquilo. Por exemplo, um atleta que vai para o jogo e está muito ansioso, está muito nervoso, o coração está muito agitado, ele tem uma necessidade de ativação. Ativação a gente compreende como a nossa capacidade de entrar naquele nível ideal no jogo. Ele precisa estar mais calmo. Então, se a gente colocar uma música mais tranquila vai ajudar nesse momento”, explicou a psicóloga.
O som escolhido antes das partidas também pode ajudar a pilhar o atleta. “Colocar uma música mais animada vai trazendo aquela energia. Então, se o atleta está muito tranquilo, ele pode ir aumentando a energia com uma música mais animada, uma música que vai trazendo esse ideal”, contou.
Em seu trabalho, Jaciara ajuda os jogadores a montarem suas playlists para antes dos jogos. A montagem combina gosto musical e a necessidade de acalmar ou animar o atleta. A medição dos batimentos cardíacos colabora nesse processo.
Uma das estratégias que podem ser usadas é começar a playlist com uma música tranquila e ir acelerando o ritmo aos poucos até chegar numa muito animada para deixar o jogador no ponto instantes antes de pisar no gramado.
Vale até emendar frases motivacionais na playlist.
“Teve um caso que era um atleta que gostava muito de músicas mais animadas. Ele sentia que o nível de ativação dele precisava estar um pouco mais enérgico. A gente foi criando uma playlist com músicas do gênero que ele gostava, que era o funk. E a gente ia colocando algumas palavras-chave que iam trazendo esse gatilho de uma forma positiva. Por exemplo: ‘vamos embora, está chegando a hora do jogo. Vamos pra cima’”, lembrou a psicóloga.
O poder do Gospel
Além de ser o gênero musical preferido da maioria dos entrevistados da pesquisa Superbet, o Gospel também lidera as playlists quando o assunto é ficar concentrado.
Quase metade dos jogadores que usam a música para se concentrar (42,3%) escolhe o gospel com esse objetivo.
Segundo Jaciara, esse gênero musical ajuda o atleta a criar um diálogo interno positivo. Para a psicóloga, além da questão religiosa, essa capacidade pode ajudar a explicar a preferência dos atletas pelo gospel.
“É importante a gente observar o indivíduo como um ser biopsicossocial e espiritual. Isso faz a gente levar em consideração como ele exerce essa espiritualidade e essa religião. Vai dizer muito sobre a forma como ele (jogador) se relaciona com Deus”, analisou a psicóloga.
Jaciara avalia que a música gospel traz tranquilidade para os atletas e faz com que eles se sintam protegidos por Deus contra lesões, por exemplo.
Independentemente do gênero musical, a psicóloga diz que ouvir música antes dos jogos ajuda o atleta a se preparar para enfrentar situações imprevisíveis. Ela relaciona essa capacidade ao fato de a maioria dos atletas ouvidos na pesquisa considerarem a música importante para a preparação mental deles.
“A gente tem na música uma questão afetiva. Ela remete a alguma questão. A música é algo que a gente conhece, é algo do cotidiano. Se eu consigo estar próxima de algo que eu já tenho uma familiaridade maior, aumenta a chance de eu conseguir ficar confortável diante de um cenário próximo que eu não tenho controle, que eu não tenho tanta familiaridade. Porque por mais que eu já conheça o jogo, eu saiba a minha posição, o que que eu vou fazer, cada jogo vai ser único”, disse Jaciara.
Porém, há o risco de a música atrapalhar a preparação mental do jogador, caso ela seja mal escolhida. “Se é uma música, por exemplo, que vai lembrar alguém que já faleceu, alguma questão que cause tristeza, não é interessante a gente colocar porque vai mexer com o emocional de uma forma que o jogador vai ficar um pouco mais melancólico, vai ficar um pouco mais triste”.
Som na caixa
Nem sempre o jogador escolhe a playlist que ele vai ouvir antes do jogo, pois é comum os atletas usarem caixas de som nos vestiários.
Na pesquisa feita pela Superbet, 58,9% dos entrevistados responderam que ouvem música antes dos jogos no fone de ouvido, 3,6% disseram que usam caixa de som no vestiário e 37,5% curtem som das duas formas antes das partidas.
Apesar dos gostos musicais variados dos jogadores que formam um elenco, há casos em que a caixa de som é usada na preparação mental coletiva de uma equipe.
Jô, ex-atacante da seleção brasileira e do Corinthians, entre outros clubes, contou em entrevista para a Superbet como ouvir música na caixa de som no vestiário ajudava os jogadores do Atlético-MG em sua passagem pela equipe de Belo Horizonte.
“No Atlético-MG, a gente sempre tinha um ritual no aquecimento de deixar a caixinha de som ali ligada. Até o próprio Carlinhos Neves (preparador físico) gostava. Ele pedia para a gente deixar ligada e eu sempre colocava Racionais MC's. Dava aquele gás a mais, aquela adrenalina maior, bem ali no aquecimento. Isso ajudava coletivamente, porque todo mundo gostava e a gente sempre entrava já ligado, motivado. Então, isso, pelo menos para a gente, ajudou bastante”, relembrou Jô.
O ex-atacante contou que chegou a colocar funk para seus companheiros de clubes no exterior ouvirem antes dos jogos. “No Manchester City (Inglaterra), quando a gente foi campeão da FA Cup (Copa da Inglaterra), os jogadores me pediram pra colocar a música que eles gostavam (funk) no pós-jogo. No Japão, a mesma coisa, eu botava às vezes antes do jogo e eles sempre gostavam”.
Jô segue a mesma linha da maioria dos participantes da pesquisa e aponta a música como importante ferramenta na preparação mental dos jogadores.
“A música traz um relaxamento, tira um pouco da tensão daquele jogo. Claro que ela não pode te tirar totalmente do foco. Pelo menos, não me tirava. Pelo contrário, me deixava relaxado, mas concentrado. Acho que para a maioria dos jogadores a música ajuda bastante”.
O poder musical vai além do pré-jogo. Uma playlist adequada para depois das partidas pode ajudar a evitar que o jogador perca horas de sono remoendo o que aconteceu em campo. “Tem a playlist de recuperação, que vai acalmando. São músicas mais relaxantes, com ainda menos instrumentos, com uma voz mais calma, para ir trazendo esse relaxamento, para o cérebro ir desligando, para trazer essa ideia de que está chegando a hora de dormir”, disse Jaciara. Segundo a psicóloga, também podem ser montadas playlists específicas para os dias de treinos.
A combinação das palavras dos especialistas com as respostas dos atletas na pesquisa elaborada pela Superbet mostra que a cena rotineira dos jogadores ouvindo música na chegada ao estádio não é só diversão. Muitas vezes, ela já faz parte da preparação para as partidas e pode influenciar no que vai acontecer em campo.